“Fake news”: o poder de destruição de histórias inventadas

Histórias e notícias falsas que são tomadas como verdade destroem reputações, arruinam negócios e causam danos muitas vezes irreparáveis ao seus alvos

Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade, ensinou Joesph Goebbels enquanto comandou a máquina de propaganda nazista. E se o nazismo foi derrotado e o mundo evoluiu em diversos aspectos desde a II Guerra Mundial, o mesmo não vale para este tema.

Com a popularização da internet e das redes sociais e a proliferação de smartphones e outros dispositivos móveis a mentira não precisa ser repetida à exaustão para que se torne verdade. Basta apenas uma.

A depender do alcance de quem conta a mentira, ela instantaneamente torna-se verdade. Ou, pelo menos, verdade para algumas pessoas. O problema é que esse “algumas” podem ser muitas. E muitas mesmo.

Em dezembro de 2016, um maluco invadiu uma pizzaria de Washington (EUA) armado com um fuzil e ameaçou um funcionário, que conseguiu escapar e chamar a polícia.

Ao ser preso, disse que viajava até a capital norte-americana para investigar o esquema subversivo, que supostamente era comandado por Hillary Clinton a partir do restaurante.

A história era apenas uma entre as centenas de notícias falsas e teorias da conspiração que ganharam força – e adeptos – durante a última corrida presidencial norte-americana.

Mas não é preciso viajar para tão longe. No Brasil, também existem exemplos claríssimos de como uma história mal contada – ou simplesmente uma mentira – pode cair na boca de milhares (ou milhões) de pessoas e, claro, arruinar reputações, destruir empresas e matar negócios fundamentais para o país.

O caso do empresário Marcus Elias é emblemático. Porque mostra que nas “fake news” as histórias mentirosas não são proferidas apenas por pessoas mal intencionadas e proliferadas apenas em grupos de WhatsApp e ou páginas do Facebook – a mídia tem papel fundamental nessa história.

O sensacionalismo, a busca desenfreada por audiência, a pressa em contar a história antes dos concorrentes e, em especial, a postura inquisitorial – quando não a má fé – de muitos veículos de comunicação, sempre prontos a apontar vilões e culpados, são pilares importantes na construção de pós-verdades.

Na história de Marcus Elias, é fácil perceber tudo isso na prática. As polêmicas acusações contra empresário Marcus Elias e a holding Laep Investments, comandada por ele, divulgadas de maneira genérica, difusa e confusa, decorreram basicamente dos aumentos de capital que a empresa realizou para emissões de novas ações resultantes de conversões de dívida a capital.

O curioso é que todas as emissões foram devidamente autorizadas pelas Assembléias de acionistas, e atenderam todos os preceitos legais. Além disso, foram todas também devidamente publicizadas como decorrentes de um programa de conversão de dívida a capital – que, incluive, era público, isonômico e devidamente comunicado à CVM e ao mercado.

Ora, mas se os procedimentos eram todos legais, por que a empresa se tornou alvo de processos, teve negociações suspensas pela Bovespa e pela CVM? É aí que nós voltamos ao conceito inicial deste texto – e o quanto ele pode ser utilizado em benefício (e/ou prejuízo) de determinados grupos.

Um diminuto grupo poderoso e influente de investidores da Laep, cujo poder talvez possa ser explicado pelo fato de serem influentes “agentes públicos”, apresentou grande número de denúncias à variados órgãos públicos – em especial à CVM. 

Mesmo sem provas, acusaram terem sido admitidas à conversão, dívidas e credores inexistentes, o que seria uma fraude de desvio de dinheiro. Mesmo antes de investigar a veracidade das denúncias, a Procuradoria Federal Especializada da CVM (PFE-CVM) ingressou com Ação Civil Pública na Justiça Federal, bloqueando todos os bens da Laep e de seu controlador Marcus Elias. 

Após longos 4 anos, as investigações da CVM concluíram que não houve fraude. Não houve desvios. Todas as dívidas eram legítimas e nenhuma das empresas que receberam ações em pagamento de dívidas tinham qualquer ligação com os administradores da Laep ou seu controlador.

A CVM, inclusive, reconheceu em juízo nunca ter tido provas das acusações de fraude e desvio que lançou. Mais do que isso: teve que formalmente desistir da acusação em face de acusados do desvio, que nunca existiu. Mas a mentira continuou. 

Grupos de mídia como a Infomoney – não se sabe se por interesses pessoais ou na busca desenfreada por audiência – trataram de endossar denúncias, divulgar informações equivocadas, ouvir apenas um lado da história e, enfim, ajudar a criar uma narrativa fictícia que seria contada até se tornar “verdade” – ou, então, render bons frutos.

Foi o que aconteceu: o processo, já nos holofotes do mercado financeiro, prosseguiu até a derrocada da holding e de seu então presidente Marcus Elias.

Casos em que “fake news” são divulgadas e aceitas como histórias reais existem aos montes – quem não se lembra, por exemplo, do famoso caso da Escola Base?

Os casos Escola Base e Laep são distintos – no primeiro, não houve nenhum beneficiado pela mentira, fruto basicamente de incompetência jornalística. No segundo, a incompetência jornalística foi apenas um dos meios para se chegar ao fim – o benefício de alguns poucos indivíduos, que lucraram muito com os processos contra a holding.

Mesmo diferentes em diversos aspectos, os dois casos também têm semelhanças fundamentais, como o poder de destruição típico de “fake news” que se proliferam como verdadeiras.

O mais emblemático no caso da Laep e Marcus Elias é a recusa dos órgãos públicos em investigar as ilegalidades cometidas pelo grupo de investidores, como a manipulação de mercado com as falsas denúncias que promoveram. Seria pelo corporativismo existente entre os agentes públicos, ou por motivo mais sério?

E, por mais que quase sempre esse tipo de história seja desmascarada, na maioria das vezes isso não acontece antes de causar enormes estragos – muitas vezes irreparáveis. E, quando a verdade vêm à tona, o caso logo deixa de ser notícia e é esquecido pela imprensa e pela opinião pública.

Mas nunca por quem teve sua biografia manchada, sua reputação arruinada e seus negócios devastados.

Uma mentira contada mil vezes pode se tornar verdade. E destruir a vida de pessoas como só um oficial nazista seria capaz de imaginar.

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